Essa semana eu resolvi fazer um
tendepá de coisas diferentes que vocês não perceberão como exatamente
diferentes até que eu as explique como tal. Como ninguém aqui está morto,
dedicados leitores, vamos às explicações.
Fui ao teatro – ouço uma
sequencia de cacarejantes risadas saídas da sua boca, ingrato leitor, enquanto
pensa: “E que, diabos, há de diferente nisso, meu querido?”. Não é aqui que se
encontra a diferença, mas um pouco adiante, acalmai o vosso furor, colega! Lá
adentrado percebi que minha cadeira cativa – porque eu posso, eu tenho,
idolatrai-me – estava ocupada e reservada a alguma people mais very important que
eu. Fui para uma fila próxima. Neste momento deu-se-me uma angústia nunca antes
avistada e pensei “Ao fundo, homens, içai a bujarrona!”, e com este pensamento
em mãos dos meus miolos me dirigi reta e obstinadamente ao fundo, última
fileira platéica daquele lugar. Aqueles que me conhecem, e são todos os
honrados e amantíssimos leitores desta enfiada de baboseiras, sabem que eu não
costumo me sentar além da décima fileira, mas...
Aqui exatamente, sentado no meio
do teatro – fila última, porém lugar central – começa a função que em havia
sido recomendada por três distintos e altamente confiáveis sinais: o primeiro
deles um nome interessante – cujo é minha paixão eterna a qual sempre persigo e
na mor das vezes estou certo em segui-la apesar da lírica diatribe que a
menina-moça Julieta faz naquele
balcão contra a vanidade dos nomes – Savana
Glacial; segundamente, meu instinto para peças boas, quem nas últimas vezes
tem tido um acerto de cem por cento e se fosse maior a centagem maior seria o
acertamento; terceiramente e por fim a recomendação encarecida e ouvida com
atenção da palavra de Hélio Fróes,
opinião nunca ignorável.
Precisamente neste momento
precisaríamos de uma pausa dramática que rompesse a tensão frouxa deste texto, porque
agora começou a peça, embora somente metafóricas cortinas estejam se abrindo.
Eu sou incapaz de contar o que
estava acontecendo naquele palco. No momento em que lá estava eu tudo
compreendi talvez porque a força cênica era tamanha que em nenhum momento minha
atenção teve sua amada visão distraída por nada. Afora isso temos minha
completa inabilidade em relatos que não sejam confusos, mas podemos tentar
driblar a lembrança vaga juntando partes das memórias que me sobram com o que
puder ser feito pela sua imaginação auxiliar, leitor compenetrado.
A genial peça de Jô Bilac trata de uma mulher sem memória
– o que me soa familiar e fácil de compreender -, seu marido e uma vizinha. Em
meio a tudo as memórias, a realidade, a imaginação, tudo vai se tornando
confuso, se imiscuindo, se interpenetrando de modo que temos uma imagem mas
nenhuma certeza fatual sobre nada que é dito. E em meio a essa caótica e
irrevelada maçaroca misteriosa temos uma sangrenta força visceral que avassala
tudo. Você pode até não entender, mas que vai sentir aquela força, vai. Ah, se
vai!
E de tudo o que era inesperado em
mim agora vem o mais inesperado – nem tão inesperado, acho melhor eu parar de
fazer a linha clássico-nojento e mostrar minha real face: a linha
amo-tudo-que-é-bom. Sempre tive um probleminha com teatro físico que em geral é
só gente fazendo um monte de macacada sem nenhum alma, metaforicamente poderia chama-los
de autômatos que soa bem e nem parece xingamento – embora seja. Daí que me dá
ganas e recebo recomendações altamente seguíveis para uma peça de um grupo que
se chama Grupo Físico de Teatro. Como
lidar? Vou né? Que nunca fui burro! Chego lá, sim, é teatro físico. Mas soma-se
a este “sim” um outro maior e mais revelador: sim era ótimo, era vivo, era
sentido, era doloroso, era humano – virtude esta que se opõe ao xingamento
anterior nunca a estes dirigidos. Havia tal beleza, força – palavra tão
repetida aqui –, tal sentimento em tudo, até nos movimentos que poderiam
parecer sem lógica. Era de tal forma barroco, expletivo e fulgurante todo e
qualquer gesto que os olhos ficavam inebriados. E tudo se encaixava de forma
tão clara e absoluta que nada em momento algum parecia sobrar, não havia
arestas, somente um modo distanciado do comum de se falar e agir, sendo,
contudo, o modo certo.
Não posso ressaltar nenhum ator que todos eram excelentes. Mas posso ressaltar duas coisas uma delas ínfima e hilariante que foia sequencia de paradoxais nomes de esmaltes citados de enfiada e a última cena de Meg também num rosário de citações sai falando tudo o que sabe sobre o motoqueiro. Saí do teatro um misto de angústia, riso, confusão e beleza, por isso não escrevi antes – a última das coisas que fiz diferente essa semana.
Fugiu-me à lembrança (mesmo não sendo "uma mulher sem memória") que vossa mercê havia publicado estes escritos e devo dizer que agora que os li foram bela surpresa. Seu barroquismo é arrebatador, nobilíssimo amigo.
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