sábado, 29 de outubro de 2011

Paradoxo de Memórias


Essa semana eu resolvi fazer um tendepá de coisas diferentes que vocês não perceberão como exatamente diferentes até que eu as explique como tal. Como ninguém aqui está morto, dedicados leitores, vamos às explicações.
Fui ao teatro – ouço uma sequencia de cacarejantes risadas saídas da sua boca, ingrato leitor, enquanto pensa: “E que, diabos, há de diferente nisso, meu querido?”. Não é aqui que se encontra a diferença, mas um pouco adiante, acalmai o vosso furor, colega! Lá adentrado percebi que minha cadeira cativa – porque eu posso, eu tenho, idolatrai-me – estava ocupada e reservada a alguma people mais very important que eu. Fui para uma fila próxima. Neste momento deu-se-me uma angústia nunca antes avistada e pensei “Ao fundo, homens, içai a bujarrona!”, e com este pensamento em mãos dos meus miolos me dirigi reta e obstinadamente ao fundo, última fileira platéica daquele lugar. Aqueles que me conhecem, e são todos os honrados e amantíssimos leitores desta enfiada de baboseiras, sabem que eu não costumo me sentar além da décima fileira, mas...
Aqui exatamente, sentado no meio do teatro – fila última, porém lugar central – começa a função que em havia sido recomendada por três distintos e altamente confiáveis sinais: o primeiro deles um nome interessante – cujo é minha paixão eterna a qual sempre persigo e na mor das vezes estou certo em segui-la apesar da lírica diatribe que a menina-moça Julieta faz naquele balcão contra a vanidade dos nomes – Savana Glacial; segundamente, meu instinto para peças boas, quem nas últimas vezes tem tido um acerto de cem por cento e se fosse maior a centagem maior seria o acertamento; terceiramente e por fim a recomendação encarecida e ouvida com atenção da palavra de Hélio Fróes, opinião nunca ignorável.
Precisamente neste momento precisaríamos de uma pausa dramática que rompesse a tensão frouxa deste texto, porque agora começou a peça, embora somente metafóricas cortinas estejam se abrindo.
Eu sou incapaz de contar o que estava acontecendo naquele palco. No momento em que lá estava eu tudo compreendi talvez porque a força cênica era tamanha que em nenhum momento minha atenção teve sua amada visão distraída por nada. Afora isso temos minha completa inabilidade em relatos que não sejam confusos, mas podemos tentar driblar a lembrança vaga juntando partes das memórias que me sobram com o que puder ser feito pela sua imaginação auxiliar, leitor compenetrado.
A genial peça de Jô Bilac trata de uma mulher sem memória – o que me soa familiar e fácil de compreender -, seu marido e uma vizinha. Em meio a tudo as memórias, a realidade, a imaginação, tudo vai se tornando confuso, se imiscuindo, se interpenetrando de modo que temos uma imagem mas nenhuma certeza fatual sobre nada que é dito. E em meio a essa caótica e irrevelada maçaroca misteriosa temos uma sangrenta força visceral que avassala tudo. Você pode até não entender, mas que vai sentir aquela força, vai. Ah, se vai!
E de tudo o que era inesperado em mim agora vem o mais inesperado – nem tão inesperado, acho melhor eu parar de fazer a linha clássico-nojento e mostrar minha real face: a linha amo-tudo-que-é-bom. Sempre tive um probleminha com teatro físico que em geral é só gente fazendo um monte de macacada sem nenhum alma, metaforicamente poderia chama-los de autômatos que soa bem e nem parece xingamento – embora seja. Daí que me dá ganas e recebo recomendações altamente seguíveis para uma peça de um grupo que se chama Grupo Físico de Teatro. Como lidar? Vou né? Que nunca fui burro! Chego lá, sim, é teatro físico. Mas soma-se a este “sim” um outro maior e mais revelador: sim era ótimo, era vivo, era sentido, era doloroso, era humano – virtude esta que se opõe ao xingamento anterior nunca a estes dirigidos. Havia tal beleza, força – palavra tão repetida aqui –, tal sentimento em tudo, até nos movimentos que poderiam parecer sem lógica. Era de tal forma barroco, expletivo e fulgurante todo e qualquer gesto que os olhos ficavam inebriados. E tudo se encaixava de forma tão clara e absoluta que nada em momento algum parecia sobrar, não havia arestas, somente um modo distanciado do comum de se falar e agir, sendo, contudo, o modo certo.
Não posso ressaltar nenhum ator que todos eram excelentes. Mas posso ressaltar duas coisas uma delas ínfima e hilariante que foia  sequencia de paradoxais nomes de esmaltes citados de enfiada e a última cena de Meg também num rosário de citações sai falando tudo o que sabe sobre o motoqueiro. Saí do teatro um misto de angústia, riso, confusão e beleza, por isso não escrevi antes – a última das coisas que fiz diferente essa semana.

1 comentários:

  1. Fugiu-me à lembrança (mesmo não sendo "uma mulher sem memória") que vossa mercê havia publicado estes escritos e devo dizer que agora que os li foram bela surpresa. Seu barroquismo é arrebatador, nobilíssimo amigo.

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Que gentil! Obrigado por comentar.