terça-feira, 13 de dezembro de 2011

La belle Helène


Eu pensei bastante antes de vir aqui escrever. Não queria. Aliás, não quero, que é mais efetivo ambos como vontade e como texto por denotar nesse seu modo indicativamente presenciado algo expresso e sentido ao mesmo e exato tempo. Ma... né?! Escrever é um vício e a ele eu me entrego belissimamente sempre que posso, ocasiões raras, porém prazerosas – pra mim, pelo menos, que decidi ser humilde e deixar à vossa discrição, seletivo leitor, se é um prazer ou um deleite ler minhas reflexivas palavras.
Assim eu conto, fofoqueiro teatral que sou, duma passagem marcante, descoroçoadoramente marcante, que o Grupo Galpão teve nesta minha Big Apple de tamanho mediano tão querida. E foi nesse domingo último próximo que eu me dirigi ao amplo e confortável (olha o merchan aê, gente! Até que podia, né?!) Teatro Sesi. Naquelas longínquas lonjuras quase perto de um centro urbano next to you, eu tive um tempo sem tempo.
Numa das mais autoflagelantes e elegantemente escritas autobiografias com toque de pornografia teológica que eu já li, Santo Agostinho, bispo de Hipona, trata nos – creio – vinte últimos capítulos dos problemas teológico-filosóficos do tempo. Lá pelas tantas o santo homem seguindo uma lógica implacável diz que – neste ponto observem que não há aspas, e que não é uma citação, mas sim uma paráfrase (não sabe o que é? Reza pra São Google) – Deus criou o tempo. Uma observação sagaz para um santo estudioso da Bíblia, aquele livro fantástico que nalgum lugar diz que Deus criou tudo. Mas, peraê! Sendo o tempo uma parte do todo que chamamos tudo, não é óbvio que Deus criou o tempo quando aquele tudo foi sendo feito parte por parte? Ao que tudo indica no século IV alguns sacripantas não pensavam assim e o nosso inquestionável bispo estatuiu para as futuras gerações a questão da criação do tempo – e algumas outras que não vem ao caso. O mais instigante de tal reflexão teológico-filosófico-cronométrica é que a questão seguinte é que Deus está fora do tempo já que o criador – neste caso com maiúscula - é, necessário que se diga, é preexistente à criação.
Neste último Dominus Dies eu estive com Deus. Aquele teatro foi colocado fora, antes e além do tempo, por uma grupo de saltimbancos divinos que resolveram sabe-se lá porque cargas d’água me fazer conhecer aquele velho russo desalentado, Ivan. Mais que Ivan, nosso Vania. E Sonia, poderia chama-lo mais carinhosamente Tio Vania.
A única outra coisa do Tchékhov que eu já vira – notem, por favor, o gracioso efeito que um pretérito mais-que-perfeito bem empregado pode gerar – foi uma encenação deliciosa de O Pedido de Casamento. Mas vamos nos calar que a estreia foi divina e uma subsequente visita ao mesmo espetáculo foi um vendaval de desastres. Nunca tivera – de novo, se puderem, notem o efeito – antes a oportunidade de me acercar do quarteto fantástico dele a não ser pelo meio vago da leitura. Eu não sinto nada em dizer que acho Tchékhov meio chato e para nunca ser injusto, coisa que me abomina, numa terceira leitura As Três Irmãs me pareceu interessante e gostei genuinamente d’A Gaivota.
Até aqui sem mais, no entanto veio o Galpão e fez aquilo que eu mais odeio que façam comigo: mudou completamente minha opinião. Tio Vania (aos que vierem depois de nós) é um dos espetáculos mais lindos que eu vi nos últimos tempos. E quando eu digo lindo eu quero mesmo dizer isso. Todas aquelas pequenas partes nós juntamos delicadamente e chamamos teatro perfeitas.
Mas há mistérios naquilo. Há bruxaria escondida. Há coisas inexplicáveis.
Primeiro: a adaptação. Como não conheço o original não conseguiria dizer até que ponto foi adaptado, mas não acredito que o discurso a la “Diga Não a Belo Monte” que o Ástrov faz não deve ser da pena medicinal do Anton. Mas a adaptação era tão bem feita que fica difícil afirmar categoricamente que o Dr. Tchékhov não aparece naquele vídeo-protesto.
Segundo a encenação: eu não costumo gostar de teatro realista já que o dito cujo é por seleção natural o irmão estranho e deslocado socialmente do cinema. Num cinematógrafo até as bestas aladas dos Nazgûl são normais e críveis. Coloca só uma dentro de um teatro e a comédia-paródica-farsesca está armada. Mas era Tchékhov: pai, mãe, madrinha e parteira do realismo. O teatrólogo sério que Stanislávsky nos revelou junto com seu maravilhoso e fácil método em doze passos. Rá! Não contávamos com a astucia da diretora Yara de Novaes. Apesar de toques irreais nossa querida senhora diretora manteve as atuações no lugar e ainda transformou o sisudo russo num homem agradável e às vezes até bem engraçado.
Terceiro: Helena. Todos os atores estavam muito bem. Nenhum ponto, jamais, nem de longe nem por mérito algum, reclamável. Todo mundo estava no mesmo lugar, fazendo o que devia sem por isso ter um demérito, muito diferentemente – esse é um mérito raro. Mas havia uma figura, uma diabólica moscovita, por quem todos se apaixonam: Helena. Não estava próximo do palco, então por momento algum pude ter a certificação das palavras pelas vistas. O certo é que todos falavam que Helena era linda. E as roupas dela eram lindas. E a silhueta era linda. E os cabelos dela eram lindos. E as mãos dela eram lindas. E a boca dela era linda. E com toda absoluta e mais irretorquível certeza Helena era deslumbrantemente linda.

1 comentários:

  1. Santo Agostinho nos guarde e nos guie: Tchekhov copiou a Helena machadiana! Se além de linda for prendada a moça, a suspeita converte-se em fato. Ah, por favor, quero uma besta alada de Nazgul numa peça! Vai, diz que sim... Bom por demais seu texto. Esse "tsxuvânia" deve mesmo ser um cara legal. (PS: Coloquei "sx" porque tchuvânia seria pluviométrico demais).

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